6 de fev de 2018

Toró

Depois de quatro anos morando em Brasília - sem carro - já é sabido que dificilmente entre os meses de janeiro e março é possível chegar em casa sem ter pegado chuva ao longo do dia. Hoje quase perdi a havaiana do pé direito na enxurrada da w3, rua daqui que não tem escoamento de água. Um moço a salvou a tempo pra mim, mas não sem antes brigar comigo por tê-la deixado sair do pé e não ter corrido atrás pra tentar buscá-la... Acho que ele não percebeu que a minha calça caía enquanto eu carregava duas sacolas de mercado na iminência de rasgar e um casaco enrolado no pescoço porque não deu tempo de vestir.
Se não fosse a chuva, teria dito a ele que muito obrigada a gentileza de ter se esforçado pra pegar, mas é que já não me importo mais se molho a barra da calça (ou mesmo a calça inteira) no caminho de volta pra casa, ruim mesmo é quando tem que ir pro trabalho e a chuva dificulta.
Ah! Quem sou eu pra reclamar sobre o clima e o tempo dessa cidade?! Estamos na mesma, afinal... Quando a gente se cansa de ensolarar para as pessoas porque elas só reclamam do nosso calor é comum se deixar nublar. O tempo fecha, a gente chora, mas logo passa, a gente abre um sorriso e se ilumina outra vez, né? Nem sempre por muito tempo, daí chove de novo, respira, chora outra vez, até se erguer novamente e abrir espaço entre uma nuvem e outra pra deixar nosso sol brilhar. 
Tudo bem, Brasília, nós somos mesmo assim. 
Algumas pessoas se acostumam e nos amam apesar da instabilidade, outras nos toleram porque precisam e, por nossa sorte, quem não gosta mesmo da gente tem passe livre pra buscar outro canto pra viver.

28 de jan de 2018

Presente

Há mais de ano te prometi um certo presente de natal, você sabe o que é. Vim te dizer que ele está sendo produzido agora. Sim, neste exato momento. 
Peço desculpa pela demora. 
É que a vida é correria, sabe? Acordar pulando da cama porque o relógio às vezes parece que conta rápido demais os segundos e, nesse balanço, umas três vezes por semana acontece até de esquecer de preparar algo pra comer ao longo do dia. Descer as escadas de casa correndo, calçar o sapato entre um degrau e outro, apressar o passo pra não perder o ônibus - e você sabe como é quando a gente perde o ônibus - entrar nele lotado, já suado e cansado de um dia que ainda nem começou. Impossível checar as mensagens, escrever um texto ou ler um livro. Tem que se concentrar pra não cair a cada freada que o motorista dá por causa do trânsito... 
É que o trânsito é correria, sabe? Semáforo é tipo relógio, mas às vezes parece que conta devagar demais os segundos, daí quando acende aquela luz verde, todos os veículos estão atrasados demais, umas três vezes por semana acontece pelo menos um acidente aqui no bairro. Os carros descem as avenidas correndo, os motociclistas cruzam entre um carro e outro. Apressar o passo pra não chegar atrasado ao serviço - e você sabe como é quando a gente chega atrasado ao serviço - encarar a cara feia do chefe, que já está suado e cansado de um dia que ainda nem começou. Impossível checar as mensagens, escrever um texto ou ler um livro. Tem que se concentrar pra cumprir os prazos a cada bronca que o chefe dá por causa dos lucros perdidos...
É que o trabalho é correria, sabe? Mas vou me eximir de utilizá-lo como desculpa pelo atraso, porque eu nem saberia por onde começar.
Acho que demorei também porque eu não sabia direito o que fazer. Dúvida. 
Acho que você percebeu. Dívida. 
Não sei se cabe no seu presente essa promessa do passado, mas hoje é mais fácil sem o cheiro de alfazema impregnado nos móveis e nas incertezas.