31 de dez de 2016

Destinos

Botar o pé na estrada, tal qual botar as ideias no papel; ou no bloco de notas do celular; ou no blog; ou num guardanapinho; ou num saco de pão; ou no verso de uma nota fiscal, me inunda de satisfação. Pode ser de avião, de barco, de trem, a pé, de carro - dirigindo ou de carona - de ônibus (como é de costume) e um dia, juro, quero poder viajar até de bicicleta. Sou dessas que sorri ao entrar num ônibus, mesmo que seja pra passar dentro dele quatro horas em uma viagem que poderia muito bem ser feita em duas, caso estivesse de carro.
O contentamento em explorar lugares novos eu compartilho com muita gente, nenhuma novidade, inclusive acho que essa paixão eu herdei, por isso sei que, assim como eu, muita gente adora pisar em território desconhecido, observar sotaques diferentes, visitar pontos turísticos, conhecer as histórias que lugares incríveis têm pra nos contar. Viajar pra outro estado ou outra cidade, que seja... é um experiência única de descoberta não só da nova cultura mas também de nós mesmos: como reagimos ao trânsito, às pessoas (e a forma que elas nos recepcionam), como lidamos com a alimentação e com os outros turistas e todas essas coisas que dizem muito sobre quem somos, de onde viemos e por onde passamos.
Entretanto, sem querer me gabar nem me sentir especial, digo que essa minha paixão vai mais fundo, é que eu, além de desbravar estradas,  adoro voltar a lugares já conhecidos, reviver experiências com outros olhos, permitir me conhecer de novo e deixar que os lugares se apresentem a mim mais uma vez.
Também me encanto pelo percurso, é a experiência inteira, completa. As estradas cercadas por verdes serras e mesmo pelas árvores do cerrado, as veredas e até as entediantes plantações de soja e milho que sustentam a economia desse país me alegram o observar. Os pivôs ligados dando chance a múltiplos arco-iris, o mar visto de cima pela janelinha do avião, as pontes que nos permitem soltar sempre uma interjeição sobre o nível dos rios dada a seca ou o período de chuvas.
Eu gostaria de listar todos os lugares que ainda quero visitar, mas não me engano a esse ponto... Estou ciente que não seria possível, é que eu não sou capaz nem mesmo de enumerar os lugares aos quais eu quero retornar! (Vai que esqueço de algum?! Eu não me perdoaria). Prefiro largar assim, à própria sorte, a vida é quem me apresenta o próximo destino, seja ele conhecido ou a conhecer.
Agora mesmo, saindo de meu berço mineiro, já parei em duas cidades do Goiás e retorno à Brasília, cidade que me acolheu com muito aprendizado e muito amor, mas peço desculpa porque não vou me estender por lá mais que dezessete horas, logo pego um vôo pra João Pessoa, que é pra reviver aquele Sol salgado de lá, e quando o mar já estiver cansado de mim, pego meu rumo pra Uberlândia ou São Paulo, é que ainda nem sei.
Eu não sou muito da rotina, ainda não me entreguei a ela, luto e resisto pra continuar me entregando aos destinos, que não ouso confundir com acaso.
Mais um ano desse calendário que um dia inventaram vai se acabando, sob meu julgamento nem bom nem mau, mas saio dele de fininho, do meu jeito mineiro, com o sorriso no rosto e o pé não só na estrada como também nas nuvens, posso dizer. Viajando, pronta pro que vier!

1 de nov de 2016

Espiral

De cristal
a bola e a lua
De fogo
o coração e o espírito

O gato, companhia
A vassoura, amuleto 
A fogueira, comunicação
A noite, abrigo

Ser bruxa vai além de proferir feitiços, gostar de inventar moda na cozinha, ter uma relação especial com os animais ou escolher o que vestir. 
Faz parte de ser bruxa se dedicar ao conhecimento ancestral e a si mesma, respeitar a Natureza e todos os seres que a compõem. Durante a trilha a gente encontra um ou outro obstáculo; no início, a noite gera insegurança, mas os olhos logo se acostumam com a quietude e com a luz tímida das estrelas. A confiança em si e no cosmo aumenta, Céu vira mapa; Rio e Mar viram chuveiro; Sol vira toalha e a Lua, a essas alturas, já é mais que confidente.
Além disso, nossas mestras e anciãs percorrem parte do caminho ao nosso lado, nos ensinam a lidar com os trechos tortuosos da espiritualidade e da magia, nos ensinam a virtude da humildade e os prazeres da coletividade: pedir ajuda não é demonstrar-se fraca, é reconhecer o triunfo daquelas que começaram a percorrer o caminho antes de nós.
Os animais, a gente logo descobre, são grandes aliados. Aprender a ouví-los exige dedicação, paciência e sensibilidade, mas depois que a comunicação é estabelecida, a solidão deixa de ser uma opção dentre muitas que o acaso oferece e se torna uma escolha. 
Aliás, nós também aprendemos que não existe acaso ou coincidência, tudo o que existe e acontece se não é uma escolha, um dia foi, e hoje experienciamos as consequências dela. Uma vez ciente disso, a qualidade da prudência se torna essencial, tudo o que vivemos é criação nossa e assumir essa responsabilidade requer maturidade e amor sincero por esse caminhar. 
Respeito é um dos princípios mais importantes pra nós e começamos por respeitar a nós mesmas e os nossos limites; da mesma forma, é necessária sabedoria para impor limites ao nosso ego pra que sejamos livres pra arriscar, pois caso a gente caia, já sabemos que não estaremos sozinhas ao levantar. 
Ser bruxa é agradecer a cada manhã as graças alcançadas, reconhecer os ciclos, perdoar, apaixonar, se entregar, esperar, chorar, lutar, conquistar, comemorar, ser. Não cabe em tão pouco espaço esse experimento vital, também não em infinitas palavras (mesmo que eu as tivesse), mas deixo aqui o registro de uma tentativa a título de comemoração.

Que cada bruxa possa carregar - e recarregar - a paz e a harmonia em seu lar. 
AHOW!