27 de dez de 2012

Lancinho

Aconteceu tão rápido quanto o frescor de uma brisa. Seu olhar fugaz. Suas palavras possuem um timbre que eu ainda não conhecia, mesmo assim, não tive dificuldade em identificá-lo e assim foi fácil fazer com que eu dançasse conforme a sua música. Meu coração passou a bater em um compasso diferente, frenético. Meus lábios, secos, ficaram difíceis de conter. Minhas pernas chacoalhando mesmo sem escutar um som qualquer e assim, dessa forma, mesmo que efêmera, o meu corpo procura o seu. Meus ouvidos em busca da sua voz, meus dedos em busca de seus cabelos, a minha cintura desesperada em busca de suas mãos. Só um toque seu é necessário pra me fazer transcender, levitar. 
Ao fechar os olhos eu consigo sentir o cheiro do seu quarto, da sua cama, das suas roupas e da sua bagunça, esta que você insiste em considerar organizada. Quando eu fecho os olhos eu posso ouvir o seu riso, os seus elogios e os seus sussurros. Quando fecho os olhos, me entristeço por sentir que você irá partir de forma tão rápida e sutil quanto a forma que chegou. 

2 de dez de 2012

Detalhe

"Ele pode ler a minha mente" era um pensamento recorrente que ela costumava ter, ela nunca se sentia insegura à respeito dele mas sim de si mesma e ele sabia disso, mesmo ela nunca tendo dito. Ele também sabia quando ela estava nervosa ou preocupada apesar do incrível domínio que ela tinha sobre suas expressões faciais; ele sabia quando ela tentava fingir alguma coisa e sabia quando ela estava com vontade de chorar - mas isso era fácil perceber, sua face enrubescia, seu queixo tremia e seus olhos adquiriam uma expressão peculiar - ao menos isso ela não tentava disfarçar. 
Ela nunca escondera nada dele até então, mas queria testá-lo. Disse que iria viajar, passaria o fim de semana fora, sozinha em uma cidade próxima a cidade em que nascera e disse que não levaria o celular, precisava de um tempo sozinha pra descansar. Ele aceitou sem criar problemas, deu-lhe um beijo e lhe desejou boa viagem. Após agradecer, ela entrou no carro e dirigiu pra casa, estava disposta a passar o fim de semana lá mesmo, sem fazer nada. 
Passou a noite de sexta estudando e o sábado assistindo a filmes clássicos dos quais já sabia quase todo o roteiro de cor. Domingo acordou tarde, tomou uma xícara de chá enquanto assistia algum programa desagradável na TV. Quando caiu a noite ligou pro namorado pra avisar que havia chegado da - suposta - viagem, ao atender ele disse que em alguns instantes ele passaria lá pra vê-la. 
Após exatos 42 minutos ele abriu a porta do apartamento dela com suas próprias chaves, beijou-a e disse que no caminho tinha ligado e pedido pra entregarem pizza na casa dela. Quando já estavam comendo ele olhou dentro dos olhos dela e perguntou porque afinal ela tinha desistido de viajar e tinha passado todo o final de semana em casa - sem nem mesmo ter comunicado. Ela deixou o garfo cair, seus olhos saltaram das órbitas e a pizza parou no meio da garganta, quando ela conseguiu se recompor disse que só queria um tempo sozinha mas teve preguiça de viajar, ele disse que a compreendia e continuaram a comer embora ela não conseguisse entender a situação e desconcertada perguntou se ele a espionava. Ele deu uma grande sorriso e respondeu com um breve "não". Quando terminaram ele lavou a louça, disse que ligaria no dia seguinte e se despediram. 
Ela foi se deitar tentando imaginar uma solução possível para aquela situação ridícula. Como ele conseguia aquilo? Estava começando a ter medo e até uma certa desconfiança. Enquanto ela, preocupada, perdia seu sono, ele repousava tranquilo a cabeça no travesseiro e sorrindo pensava em como ela era boba por não se lembrar que ele bem sabia que, ela ao chegar de viagem sempre deixava a mala no meio da sala e demorava no mínimo três ou quatro dias para desfazê-la, e bem, quando ele entrou no apartamento, não havia mala alguma. 

18 de out de 2012

Celular


Independente, faltavam 8 meses para se formar e encarar o mercado de trabalho com todo o potencial adquirido na universidade. Nunca quis ser médica mas decidiu isso apenas no momento da inscrição do vestibular. Já recebia um salário razoável de um estágio, dividia um apê alugado com uma outra menina, que mesmo morando junto a ela há 5 anos nunca conseguira lembrar seu nome.  Justificável, visto que se encontravam por volta de duas vezes por mês.
Nunca pensou em se casar, nem ter filhos, seria responsabilidade demais. Responsabilidade, aliás, nunca foi algo que teve em abundância: não se importava em sair para beber um ou dois dias antes das provas finais nem mesmo em deixar de ir ao trabalho sem se justificar.
Era sexta-feira, último dia de prova, olhou para aquele amontoado de papeis e nem leu. Assinou, entregou a prova com o celular na mão chamando um táxi. Sairia sozinha naquela noite já que não falava com as amigas há mais de um mês "por causa da correria".
Chegou em um lugar barulhento e iluminado demais, o que diminuiu em alguns pontos percentuais a reputação daquela danceteria em seu conceito. Entrou fingindo não se importar, virou algumas doses de qualquer coisa que tivesse muito álcool e começou de fato a não ligar. Quando já não suportava mais o peso da própria cabeça, se sentou. Não estava bem e não sabia onde havia colocado o celular muito menos se lembrava do telefone do taxista. Estava bêbada demais para se preocupar, ficou ali mesmo esperando a ajuda cair do céu, até que caiu. Ouviu uma voz oferecendo ajuda, uma vez que ela estava notoriamente incapaz de andar com as próprias pernas e de pensar que aquilo poderia ser um golpe, o que por sorte não era. 
Acordou no dia seguinte com um raio de sol iluminando seus olhos, arrastou-se até o banheiro para enxaguar o rosto e foi à cozinha pegar algo para comer. O estômago roncava. Deu de cara com a garota que também morava ali, ela lhe entregou uma xícara de café junto a alguns biscoitos e com uma voz suave disse que um rapaz, por volta das 5 da manhã, a deixara lá e junto deixou um bilhete com o número de um telefone.
Sua primeira reação foi o desespero, procurou o celular pra buscar vestígios da noite anterior e conferir as horas, lembrou-se que o havia perdido. Olhou rápido o relógio velho da cozinha, já eram 3 horas da tarde, desistiu de tentar lembrar de alguma coisa da noite passada, foi tomar banho e quando saiu encontrou o apartamento já vazio e um papel com números rabiscados sobre a mesa da cozinha. Vestiu uma roupa qualquer, saiu com o papel na mão. Estava indo comprar um celular novo. 

1 de out de 2012

Les Demoiselles d’Avignon

Tida como atividade profissional indigna pela ótica moral da maior parte da população brasileira a prostituição é uma realidade não só nacional que se encontra longe da cessação e por isso é mister que esta torne-se uma atividade legalmente regular.
Está previsto na Constituição Brasileira o dever da União para com a diminuição das marginalizações e das mazelas sociais. Tendo em vista o preconceito que permeia os prostíbulos, a legalização destes tornaria a realidade dos profissionais da área menos sub-humana, uma vez que eles teriam direitos trabalhistas, maior estabilidade salarial e reconhecimento social.
Em países como a Alemanha, as casas de prostituição já são legais e estatísticas apontam que, a partir desta ação, o suborno e demais diligências corruptas diminuíram consideravelmente, assim como a discriminação. A legalização é o primeiro passo para que a barreira do preconceito seja ultrapassada, a partir do momento que o Estado reconhece um sistema de ideias a população facilmente toma aquilo como verdade - mesmo que inconscientemente.
Legalizar os prostíbulos é acabar com a demagogia alimentada pelos preceitos morais que regem a valorização do corpo mas obstruem o livre arbítrio e a oportunidade de um cidadão viver dignamente. 

29 de mar de 2012

Mais uma vez...

Não sei porque ainda choro, já era esperado. Não é novidade alguma. Eu poderia dizer que acabei me acostumando em partir, mas tenho orgulho de dizer que meu coração amolece a cada adeus, que é doloroso arriscar tanto tempo junto a alguém e que meus olhos ardem ao escorrerem as lágrimas a cada lembrança.
Sob os olhares frios isso pode ser considerado sentimentalismo em excesso. Eu também julgo como tal, embora sob um prisma diferente, sob a ótica e a realidade de quem está vivendo e sentindo as dores da saudade.

2 de mar de 2012

O interesse de ser exclusivamente interessante

Eu tenho uma mania boba de achar que devo escrever somente sobre coisas interessantes. O que é realmente interessante? Provavelmente o que eu assim o julgo é, na verdade, a maior inutilidade pra você. Não temos os mesmos interesses - ainda bem.
Isso faz parecer que nossa vida é movida unicamente por nosso interesses, por nossas vontades e desejos. Bobagem. Não é preciso ser muito inteligente ou ter muitas experiências de vida pra saber que não é bem assim.
Falar sobre assuntos interessantes, parecer interessante, ter objetos interessantes, um vocabulário interessante, família e amigos interessantes... Pra quê? Mostrar pro mundo que você é simplesmente "interessante"? Por quê? Essa tendência de viver movido pelas vontades dos outros, pelas ordens mundiais do 'certo' e do 'errado', essa paranoia de não fugir aos padrões e aquela paranoia maior ainda que dita que ser diferente é "mais legal". Bobagem. De novo. No final, as diferenças se tornam padrões e tudo acaba virando moda. Ser interessante é ser diferente? Ser diferente é ser igual? Então qual o sentido e a verdadeira motivação disso tudo?
Onde está toda a nossa autenticidade, principalmente de nós, jovens. Onde se encontra a vontade própria, a moral e os nossos ideais? Foram todos jogados sem dó nem piedade em um lixo de ilusões em um mundo onde vale é seguir os padrões: comer o que a TV diz, vestir o que a internet manda, dizer o que está exclusivamente nos livros.
Sinceramente a juventude já teve períodos um pouco mais "badalados". É incômodo demais levantarmos da frente do computador para abrirmos a boca pra dizer o que temos vontade e corrermos atrás do que é nosso por direito.
É cômodo ser simplesmente interessante sem sermos nós mesmo. 

2 de fev de 2012

Cadê?

- Sono, cadê você?
- Quando o encontrar, me diz, por favor.
- Ele sempre some quando eu mais preciso.
- ... Assim como tudo na vida.