18 de out de 2012

Celular


Independente, faltavam 8 meses para se formar e encarar o mercado de trabalho com todo o potencial adquirido na universidade. Nunca quis ser médica mas decidiu isso apenas no momento da inscrição do vestibular. Já recebia um salário razoável de um estágio, dividia um apê alugado com uma outra menina, que mesmo morando junto a ela há 5 anos nunca conseguira lembrar seu nome.  Justificável, visto que se encontravam por volta de duas vezes por mês.
Nunca pensou em se casar, nem ter filhos, seria responsabilidade demais. Responsabilidade, aliás, nunca foi algo que teve em abundância: não se importava em sair para beber um ou dois dias antes das provas finais nem mesmo em deixar de ir ao trabalho sem se justificar.
Era sexta-feira, último dia de prova, olhou para aquele amontoado de papeis e nem leu. Assinou, entregou a prova com o celular na mão chamando um táxi. Sairia sozinha naquela noite já que não falava com as amigas há mais de um mês "por causa da correria".
Chegou em um lugar barulhento e iluminado demais, o que diminuiu em alguns pontos percentuais a reputação daquela danceteria em seu conceito. Entrou fingindo não se importar, virou algumas doses de qualquer coisa que tivesse muito álcool e começou de fato a não ligar. Quando já não suportava mais o peso da própria cabeça, se sentou. Não estava bem e não sabia onde havia colocado o celular muito menos se lembrava do telefone do taxista. Estava bêbada demais para se preocupar, ficou ali mesmo esperando a ajuda cair do céu, até que caiu. Ouviu uma voz oferecendo ajuda, uma vez que ela estava notoriamente incapaz de andar com as próprias pernas e de pensar que aquilo poderia ser um golpe, o que por sorte não era. 
Acordou no dia seguinte com um raio de sol iluminando seus olhos, arrastou-se até o banheiro para enxaguar o rosto e foi à cozinha pegar algo para comer. O estômago roncava. Deu de cara com a garota que também morava ali, ela lhe entregou uma xícara de café junto a alguns biscoitos e com uma voz suave disse que um rapaz, por volta das 5 da manhã, a deixara lá e junto deixou um bilhete com o número de um telefone.
Sua primeira reação foi o desespero, procurou o celular pra buscar vestígios da noite anterior e conferir as horas, lembrou-se que o havia perdido. Olhou rápido o relógio velho da cozinha, já eram 3 horas da tarde, desistiu de tentar lembrar de alguma coisa da noite passada, foi tomar banho e quando saiu encontrou o apartamento já vazio e um papel com números rabiscados sobre a mesa da cozinha. Vestiu uma roupa qualquer, saiu com o papel na mão. Estava indo comprar um celular novo. 

1 de out de 2012

Les Demoiselles d’Avignon

Tida como atividade profissional indigna pela ótica moral da maior parte da população brasileira a prostituição é uma realidade não só nacional que se encontra longe da cessação e por isso é mister que esta torne-se uma atividade legalmente regular.
Está previsto na Constituição Brasileira o dever da União para com a diminuição das marginalizações e das mazelas sociais. Tendo em vista o preconceito que permeia os prostíbulos, a legalização destes tornaria a realidade dos profissionais da área menos sub-humana, uma vez que eles teriam direitos trabalhistas, maior estabilidade salarial e reconhecimento social.
Em países como a Alemanha, as casas de prostituição já são legais e estatísticas apontam que, a partir desta ação, o suborno e demais diligências corruptas diminuíram consideravelmente, assim como a discriminação. A legalização é o primeiro passo para que a barreira do preconceito seja ultrapassada, a partir do momento que o Estado reconhece um sistema de ideias a população facilmente toma aquilo como verdade - mesmo que inconscientemente.
Legalizar os prostíbulos é acabar com a demagogia alimentada pelos preceitos morais que regem a valorização do corpo mas obstruem o livre arbítrio e a oportunidade de um cidadão viver dignamente.