2 de dez de 2012

Detalhe

"Ele pode ler a minha mente" era um pensamento recorrente que ela costumava ter, ela nunca se sentia insegura à respeito dele mas sim de si mesma e ele sabia disso, mesmo ela nunca tendo dito. Ele também sabia quando ela estava nervosa ou preocupada apesar do incrível domínio que ela tinha sobre suas expressões faciais; ele sabia quando ela tentava fingir alguma coisa e sabia quando ela estava com vontade de chorar - mas isso era fácil perceber, sua face enrubescia, seu queixo tremia e seus olhos adquiriam uma expressão peculiar - ao menos isso ela não tentava disfarçar. 
Ela nunca escondera nada dele até então, mas queria testá-lo. Disse que iria viajar, passaria o fim de semana fora, sozinha em uma cidade próxima a cidade em que nascera e disse que não levaria o celular, precisava de um tempo sozinha pra descansar. Ele aceitou sem criar problemas, deu-lhe um beijo e lhe desejou boa viagem. Após agradecer, ela entrou no carro e dirigiu pra casa, estava disposta a passar o fim de semana lá mesmo, sem fazer nada. 
Passou a noite de sexta estudando e o sábado assistindo a filmes clássicos dos quais já sabia quase todo o roteiro de cor. Domingo acordou tarde, tomou uma xícara de chá enquanto assistia algum programa desagradável na TV. Quando caiu a noite ligou pro namorado pra avisar que havia chegado da - suposta - viagem, ao atender ele disse que em alguns instantes ele passaria lá pra vê-la. 
Após exatos 42 minutos ele abriu a porta do apartamento dela com suas próprias chaves, beijou-a e disse que no caminho tinha ligado e pedido pra entregarem pizza na casa dela. Quando já estavam comendo ele olhou dentro dos olhos dela e perguntou porque afinal ela tinha desistido de viajar e tinha passado todo o final de semana em casa - sem nem mesmo ter comunicado. Ela deixou o garfo cair, seus olhos saltaram das órbitas e a pizza parou no meio da garganta, quando ela conseguiu se recompor disse que só queria um tempo sozinha mas teve preguiça de viajar, ele disse que a compreendia e continuaram a comer embora ela não conseguisse entender a situação e desconcertada perguntou se ele a espionava. Ele deu uma grande sorriso e respondeu com um breve "não". Quando terminaram ele lavou a louça, disse que ligaria no dia seguinte e se despediram. 
Ela foi se deitar tentando imaginar uma solução possível para aquela situação ridícula. Como ele conseguia aquilo? Estava começando a ter medo e até uma certa desconfiança. Enquanto ela, preocupada, perdia seu sono, ele repousava tranquilo a cabeça no travesseiro e sorrindo pensava em como ela era boba por não se lembrar que ele bem sabia que, ela ao chegar de viagem sempre deixava a mala no meio da sala e demorava no mínimo três ou quatro dias para desfazê-la, e bem, quando ele entrou no apartamento, não havia mala alguma. 

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