13 de fev de 2014

Anjos

Anjos existem e às vezes aparecem na forma de um casal de meia idade que mora no apartamento bem ao lado. Quem diria que em uma noite de chuva intensa como esta, que Brasília não via a dias, eu esbarraria em um anjo no corredor enquanto eu observava o celular carregando?
Foram tantas ofertas e preocupações com tamanha boa vontade que a princípio fiquei acanhada e recusei todas elas, afinal já está completando uma semana a luz de velas e de acordo com toda a burocracia procedimental, ainda me restam três dias de esperança pra que a luz volte sem que eu tenha que ameaçar a empresa.
Ao contrario da Central de Energia Elétrica de Brasília, os meus anjos - também conhecidos como vizinhos - eram bem insistentes e prestativos, não desistiram enquanto não conseguimos resolver parte dos meus probemas.
Foram concedidos a mim o acesso a internet e um cabo de extensão, que está pendurado pela janela, ligado na tomada do apartamento deles mas com as saídas no meu, para que eu possa ligar meus aparelhos eletrônicos em segurança. Como se isso já não fosse alegrar a minha noite - o suficiente inclusive pra me fazer escrever sobre isso - ainda me ofereceram a máquina pra lavar as minhas roupas.
Mais cedo eu havia feito uma nota mental que afirmava algo parecido com: "perdi a fé nas pessoas" e nem me lembro direito o porquê, mas meus anjos vieram pra que eu pudesse repensar meus conceitos e aumentar a minha fé.  

12 de fev de 2014

O som e o sorriso

Há seis dias venho reclamando a ausência de energia elétrica nos 30m², que orgulhosamente chamo de casa, aos amigos próximos. Meus banhos são gelados; não posso abrir sequer um leite, pois a geladeira me serve unicamente como armário; não posso cozinhar - nem mesmo macarrão instantâneo; o microondas? Serve apenas como suporte para as velas que me auxiliam após as 20 horas. Nada de televisão ou música e o celular só se mantem aceso graças a uma tomada que encontrei perdida pelo corredor do prédio.
Além da falta de energia, é impossível não resmungar sobre o calor e o clima seco, que juntos são capazer de provocar a ira até da pessoa mais serena. Hoje, quarta-feira, fui surpreendida por gotinhas de chuva que atravessaram a janela e atingiram a minha testa enquanto eu saboreava um pouco de Agatha Christie, claro, à luz de velas, uma vez que o relógio rosa pendurado na parede já indicava um pouco mais que 21h. 
Interrompi a leitura por um instante e me dei o prazer de aproveitar os pingos gelados da chuva enquanto eu sentia bater o vento que ameaçava apagar as chamas que contribuíam para com a minha leitura, mas também com o calor. 
Ao fundo, uma melodia suave e dessa vez não era criação e interpretação da orquestra que habita a minha cabeça, a música vinha de uma janela próxima, era o vizinho musicista. Tive vontade de sair correndo pra agradecê-lo pela trilha sonora, me contive e o máximo que fiz foi correr para pegar uma caneta e um pedaço de papel, eles não escapariam ao incidente que me proporcionou o ápice de alegria no decorrer de uma semana: uma boa companhia - meus livros de cabeceira, um bom clima e uma boa melodia. 
Com tudo isso e apesar das tantas relamações, que é do meu feitio fazer, acredito que ainda posso dizer que me alegro com pouco e até mesmo isso, deixa-me ainda bastante mais contente.