28 de out de 2015

Segundo andar

Os carros cobrem o asfalto como uma manta, os postes disputam espaço com as últimas árvores que restam e as luzes se encarregam de roubar o brilho das estrelas. Chamam de céu a fuligem que paira no ar, porque nunca o viram de verdade. Por sorte - ou providência divina - em algumas noites a lua consegue fugir e desfilar o seu charme pela passarela escura da noite. O Sol, por sua vez, por mais que se esforce pra exibir sua luminosidade vibrante, é intimidado pela névoa que esconde o céu quando não pela poeira, pela chuva. 
Não consigo imaginar sequer um cidadão que possa ser feliz em um lugar assim, a não ser pela menina do segundo andar. À primeira vista, descuidada, nada de especial no segundo andar, nem no primeiro, nem mesmo no terceiro. No entanto, a menina de olhos coloridos já havia contemplado toda a paleta de cores que só um pôr do sol sabe oferecer, portanto sabia olhar além daquele cinza que pintava sem capricho a monotonia. 
A janela da sala emoldurava um quadro que ela nem sequer teve o trabalho de nomear, mas eu o chamaria carinhosamente de "Vitória": coincidentemente, o nome de uma das mulheres que mais havia marcado a sua vida. Um quadro vivo, singular e uma visão privilegiada! Aquela fagulha de esperança ordenava a companhia de um vinho, mesmo um desses mais baratos, que por sorte - ou providência divina - eram os preferidos da menina do segundo andar. 
Tinha adotado, de forma bastante egoísta e com toda a eloquência de um pronome possessivo, aquela obra natural e irreverente como sua. Uma árvore, que embora pequena, havia tripudiado sobre um poste. Tivera a sorte de encontrá-la e o impulso de possuí-la. Não se faziam necessárias placas, cercas ou demarcações, apenas repousava todos os dias seus olhos coloridos sobre Vitória e com gesto inevitavelmente espontâneo fez de sua obra também o seu céu: 



6 de out de 2015

Juvenil

Procurei 
nas gavetas,
embaixo da cama,
sob o travesseiro
e dentro do armário 

Já busquei 
dentro dos sapatos,
das meias
e de todos os bolsos das calças que usei

Tive cuidado 
pra não tirar nada do lugar
pra não jogar tudo pro ar

Usei lupa 
quando o óculos não me foi suficiente

Deve estar contigo 

a pecinha que deveria completar
aquele quebra-cabeça que ganhei
ao te conhecer
Sem ela ainda não pude desvendar 
qual figura
formávamos eu e você.