4 de out de 2017

Figuras de linguagem

Catacrese é o corpo deste texto
Metalinguagem é a sílaba "ti" em repetitivo
Metáfora é a imensidão do céu no azul de alguns olhares
Comparação é o abraço quente como cobertor
Hipérbole é morrer de amor pelos ipês que colorem o planalto
Sinestesia é o sabor triste desses dias nublados
Paradoxo é a chuva fria que cai e aquece um pouco mais a seca
Prosopopeia é observar as gotas beijarem o asfalto
Polissíndeto com esse clima: ou é chá ou é café
Antonomásia é viver nas asas desse avião
Eufemismo é não se dar bem quando atrasada e o motorista do ônibus não te vê acenar
Onomatopeia? Bang!

10 de set de 2017

Mais embaixo

Tem uma mosca na sala de casa. Enquanto eu lia meus documentos e ouvia um som instrumental aleatório ao fundo, ouvi a batida exaustiva das suas asinhas. Pausei a leitura, deixei a música rolando e me coloquei a observar. O vidro com película em um tom que varia entre roxo e azul na parte superior da janela a impede de sair, mas ela permanece voando de encontro a ele, como se em algum momento ele fosse se dissolver pra ela passar. 
Um sobe e desce que me dá agonia de olhar. Voa pra cima e pra frente,  bate asa, cansa, cai. Eu quis ajudar, mas como é a parte mais alta da janela, sei que eu também teria dificuldade em conduzí-la à abertura da janela e poderia até machucá-la. Além disso, acredito que ela seja esperta o suficiente pra se livrar da situação sem muita demora, daí, pra me livrar do peso da culpa de não poder ajudar, gritei dentro de mim mesma: "ô, querida, para de se esforçar tanto, só se permita cair que sua liberdade tá um pouco mais pra baixo".
Quando concluí a frase me perguntei se eu tava dizendo isso pra ela ou pra mim mesma... É que também tenho esse medo de não bater as asas o suficiente e me ver presa no mesmo lugar. Mas, às vezes, não é nem o bater das asas, é a direção que não é tão favorável assim.
Bom, logo depois ela se permitiu escapar e voou livre pelo retângulo gigante da minha janela que, na posição em que me encontro, permite-me uma vista linda voltada pra copa de uma mangueira e pro céu azul - e sem uma nuvem sequer - dessa Brasília em tempo de seca. Tudo isso lá fora, eu aqui dentro.

8 de set de 2017

Manhã

Acorda, bebe água, faz café. Enquanto a agua esquenta, escova os dentes, escolhe a roupa. Chaleira apita. Faz um cigarro pra tomar com o café. Fruta ou biscoito? Fruta, mas depois biscoito. Toma banho, confere os e-mails, lê três notícias. Celular apita. Pega um livro, calça metade do sapato - o cadarço deixa pra amarrar na parada de ônibus. Corre pra parada vendo o ônibus passar. Esqueceu a bolsa. Volta pra casa. Confere o cabelo, pega a bolsa, amarra o cadarço. Rega as plantas sobreviventes. Respira. Sai, tranca a porta. Esqueceu o óculos no banheiro. Abre a porta, corre no banheiro, checa o cabelo, desiste - se correr até a parada de ônibus o cabelo já saiu do lugar. Corre. Tropeça no meio fio e dá risada porque já acostumou com essa falta de jeito. Vê um rato morto em frente ao bueiro. Para de rir, quase chora. Segue o baile. Chega ao ponto de ônibus, um ônibus passa, não é esse. O segundo, também não. Três, quatro, cinco, nada. Passa o oitavo, acena, motorista não para. Tudo certo, ainda em tempo. Outro ônibus, acena, sobe, "bom dia, motorista" sem resposta, cobrador dormindo, outro bom dia sem resposta.
Uma passageira aqui na frente com uma criança de banho tomado, cabelo todo bem tratado, tênis limpo, uniforme, mochila em bom estado. Criança fala demais, adulto não tem paciência, mas diz que ama e teria mais.  
Outra passageira ali, fone de ouvido, celular, tectectec. 
Dois adolescentes, uniforme, riso alto, mata aula, quer mesmo é andar de skate, dormir até mais tarde. Escola, que saco. Quando acaba? Pro primeiro, ano que vem, se forma. Pro segundo, esse ano, abandonou, cansou de estudar, ano que vem vai trabalhar na loja do tio, vender celular. 
Do outro lado do corredor, executivo. Pasta preta. Gel no cabelo bem cortado. Celular, tectectec. Negócios, documentos, chaves, pastas. 
Escolhe um lugar com mais sombra pra sentar. Ônibus essa hora tem lugar pra sentar. Dá pra escolher. Quem dera sempre assim. Respira. O dia vai começar.