10 de set de 2017

Mais embaixo

Tem uma mosca na sala de casa. Enquanto eu lia meus documentos e ouvia um som instrumental aleatório ao fundo, ouvi a batida exaustiva das suas asinhas. Pausei a leitura, deixei a música rolando e me coloquei a observar. O vidro com película em um tom que varia entre roxo e azul na parte superior da janela a impede de sair, mas ela permanece voando de encontro a ele, como se em algum momento ele fosse se dissolver pra ela passar. 
Um sobe e desce que me dá agonia de olhar. Voa pra cima e pra frente,  bate asa, cansa, cai. Eu quis ajudar, mas como é a parte mais alta da janela, sei que eu também teria dificuldade em conduzí-la à abertura da janela e poderia até machucá-la. Além disso, acredito que ela seja esperta o suficiente pra se livrar da situação sem muita demora, daí, pra me livrar do peso da culpa de não poder ajudar, gritei dentro de mim mesma: "ô, querida, para de se esforçar tanto, só se permita cair que sua liberdade tá um pouco mais pra baixo".
Quando concluí a frase me perguntei se eu tava dizendo isso pra ela ou pra mim mesma... É que também tenho esse medo de não bater as asas o suficiente e me ver presa no mesmo lugar. Mas, às vezes, não é nem o bater das asas, é a direção que não é tão favorável assim.
Bom, logo depois ela se permitiu escapar e voou livre pelo retângulo gigante da minha janela que, na posição em que me encontro, permite-me uma vista linda voltada pra copa de uma mangueira e pro céu azul - e sem uma nuvem sequer - dessa Brasília em tempo de seca. Tudo isso lá fora, eu aqui dentro.

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